Relatório – Venture Capital (EUA)
Tradução e curadoria por Ricardo Mastropasqua, sócio – OAB/SP nº 262.294 – 30 de setembro de 2025.
O PitchBook-NVCA Venture Monitor Q3 2025 mostra um venture capital americano em recuperação parcial das saídas, ainda represado na liquidez e fortemente concentrado em inteligência artificial: cerca de US$250 bilhões investidos no ano até o 3T25, com 64% do valor em IA/ML e o mercado de saídas reabrindo via IPOs de tecnologia e M&A. Abaixo, o panorama completo – e o relatório na íntegra para download.
Conteúdo do PitchBook-NVCA Venture Monitor – Q3 2025 (PitchBook Data, Inc. e NVCA), reproduzido e traduzido mediante autorização. Relatório oficial: nvca.org/pitchbook-nvca-venture-monitor.
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Saídas e liquidez
O terceiro trimestre consolidou uma recuperação parcial do mercado de saídas, com IPOs relevantes – como Figma e Firefly Aerospace – e aumento das operações de M&A acima de US$500 milhões. O ambiente de liquidez, porém, segue restrito: parte expressiva das aquisições ainda ocorre em estágio inicial. Os IPOs de tecnologia voltaram a ter força, respondendo por 95% do valor gerado, enquanto a biotecnologia perdeu tração, pressionada por incertezas regulatórias e fiscais sob a nova administração Trump.
Dealmaking: concentração recorde
O valor investido até o 3T25 já superou os anos de 2022 a 2024, totalizando cerca de US$250 bilhões. O mercado, contudo, é altamente concentrado: 64% do valor e 37% dos deals estão em IA/ML, e apenas 2,7% das rodadas – os unicórnios – capturam 56,8% do capital. Empresas como Anthropic, Databricks e xAI alcançaram valuations entre US$75 e US$180 bilhões. Em contrapartida, a participação das rodadas abaixo de US$5 milhões caiu ao menor nível em uma década (50,3%).
Inteligência artificial
IA e machine learning atingiram US$160 bilhões em valor investido em 2025, recorde histórico. O ticket médio dos deals subiu para US$58,9 milhões e o valuation médio ultrapassou US$1 bilhão, refletindo a maturidade do setor. A participação dos estágios iniciais caiu fortemente, enquanto as Series B e C passaram a dominar o fluxo de capital.
Life sciences
O setor encolheu, com volume projetado abaixo de 2024 (cerca de US$25 bilhões), mas valuations e tamanhos de rodada seguem crescendo. A atividade migra para estágios mais avançados, especialmente em healthtech e biotecnologia aplicada.
Fundadoras e geografia
O número de deals com times exclusivamente femininos recuou aos níveis de 2019, com apenas 0,8% do capital total investido nesses times; ainda assim, cresce a presença de mulheres em rodadas de venture growth, sobretudo em São Francisco e Nova York. No mapa do capital, Vale do Silício, Nova York, Los Angeles e Boston concentram 57% do total investido – e o Bay Area, sozinho, recebeu US$44 bilhões no trimestre, consolidando sua dominância.
Política e regulação
O One Big Beautiful Bill Act (OBBBA), sancionado por Trump, trouxe mudanças tributárias relevantes: ampliação da exclusão de ganho de capital de QSBS até US$15 milhões ou 10x o investimento; dedutibilidade imediata e retroativa de P&D; depreciação acelerada permanente de 100%; e incentivo fiscal a investimentos em saúde rural. Avança também o DEAL Act, que amplia para 500 o limite de investidores (LPs) em fundos early-stage, enquanto a reautorização do SBIR/STTR segue travada no Congresso.
Investidores e venture debt
A participação do corporate venture capital (CVC) manteve-se estável, presente em 21% dos deals, ao passo que crossovers e fundos de private equity ampliaram presença em rodadas tardias e megadeals de IA. O valor de mercado dos unicórnios privados ultrapassou US$3,7 trilhões. No crédito, o mercado de dívida de risco atingiu US$50 bilhões em 2025, com forte concentração em tecnologia e IA – e o ticket médio dos empréstimos late-stage triplicou desde 2024, sinalizando maturação e diversificação das fontes de funding.
Perspectiva dos players e conclusão
Entre os participantes do relatório, o J.P. Morgan destaca um otimismo cauteloso, com retomada de IPOs e M&A e política monetária mais branda (projeção de três cortes de juros até janeiro de 2026); a Dentons aponta a consolidação da tokenização e dos pagamentos em blockchain como vetor de valor; e a EisnerAmper define o momento como o nascimento do "VC 3.0" – ciclo marcado por megafundos, inovação em IA e busca de liquidez via secundárias e continuation vehicles. A síntese: o ecossistema americano entra em nova fase de consolidação e seletividade. A liquidez ainda é o gargalo, mas a IA mantém o motor ligado; fundos híbridos e secundárias ganham protagonismo, e o cenário fiscal favorável reposiciona os EUA como epicentro global do capital de risco.


