Análise – Venture Capital & Mercado Secundário
Por Ricardo Mastropasqua, sócio – OAB/SP nº 262.294 – 30 de setembro de 2025.
O ciclo de reciclagem de capital do Venture Capital travou: cerca de US$3 trilhões em valor não realizado seguem presos em unicórnios, e o IPO deixou de ser a única métrica de sucesso. A resposta dos gestores em 2025–2026 é tratar o mercado secundário – que movimentou US$106,3 bilhões em 2025 – como infraestrutura permanente de liquidez, e não como recurso de emergência.
Análise autoral, com base em dados do PitchBook-NVCA Venture Monitor – Q3 2025 e de demais fontes públicas de mercado.
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O modelo de Venture Capital sob pressão
Historicamente, o Venture Capital funciona como motor da economia de inovação por meio de um ciclo virtuoso: capital investido em empresas de alto risco gera escala, que culmina em eventos de liquidez, cujos proventos são redistribuídos e reinvestidos na fronteira tecnológica seguinte. Em 2025–2026, a interrupção desse ciclo de reciclagem pressiona as quatro características que separam o VC das finanças tradicionais – a tolerância ao fracasso ancorada na "lei da potência", o horizonte temporal de capital paciente, a estrutura de parceria em múltiplos estágios e o envolvimento estratégico do gestor. Sem liquidez, os "vencedores" permanecem retidos no balanço, impedindo a cristalização dos retornos que compensam as perdas naturais do portfólio.
O overhang de unicórnios e a crise de distribuição
O mercado enfrenta um overhang sem precedentes: estima-se um estoque de valor da ordem de US$7,3 trilhões em cerca de 1.920 unicórnios globais, dos quais aproximadamente US$3 trilhões representam valor não realizado preso nos balanços dos fundos. É a ascensão do "capital privado em escala pública" – a rodada de US$110 bilhões da OpenAI, por exemplo, supera em quatro vezes o maior IPO da história (Saudi Aramco, US$25,6 bilhões), ilustrando por que empresas de alto calibre optam por permanecer privadas por mais tempo.
A crise de distribuição se confirma em indicadores convergentes: o tempo médio até o IPO alcançou cerca de 12 anos, tensionando a estrutura tradicional de fundos de 10 anos; o DPI de fundos maduros recuou de 20% para 12%, de modo que os LPs recebem aproximadamente 60% do fluxo de caixa esperado; 75% dos fundos do vintage de 2021 retornaram menos de um quarto do capital após quatro anos; e o déficit acumulado de fluxo de caixa nos EUA desde 2022 supera US$196,9 bilhões, com chamadas de capital excedendo consistentemente as distribuições. O efeito prático é o alongamento do tempo médio de captação para 15,3 meses.
O mercado secundário como infraestrutura crítica
O mercado secundário deixou de ser ferramenta de liquidez emergencial para se tornar camada permanente da arquitetura operacional do VC. Em 2025, o volume secundário atingiu US$106,3 bilhões – quase um terço do valor total de saída de VC nos EUA – distribuído em três segmentos: as direct secondaries (venda de ações de empresas privadas individuais), as GP-led secondaries (continuation funds para ativos vencedores) e as LP-led secondaries (venda de participações em fundos por investidores institucionais).
A expansão, contudo, é assimétrica. A liquidez está concentrada: as 20 empresas mais negociadas respondem por 86,4% do volume. Para o "middle tier" – companhias com valuation entre US$500 milhões e US$5 bilhões, sem reconhecimento de marca global – o secundário permanece efetivamente fechado, por severa assimetria de informação. Superar esse hiato exigirá padronização de disclosures e adoção de tecnologias como a tokenização para reduzir fricções.
Recomendações estratégicas para gestores (GPs)
Diante de janelas de IPO intermitentes, o GP migra de alocador de capital para gestor de ecossistemas de liquidez. As diretrizes de execução mais relevantes:
- Institucionalizar janelas de liquidez – tender offers periódicos aliviam a pressão de resgate e estabilizam o NAV, protegendo o TVPI e sinalizando governança superior aos investidores.
- Mobilizar capital institucional – adaptar as estruturas de fundos às exigências de fundos de pensão e seguradoras, espelhando o framework ERISA, amplia a capacidade de "re-up" dos LPs.
- Reduzir a fricção regulatória – frameworks como o EU-INC ou a ASEAN Digital Economy diminuem o "imposto invisível" da fragmentação regulatória em operações cross-border.
- Capitalizar founder factories – em 2025, 281 unicórnios deram origem a mais de 2.000 novas startups; só Spotify, Klarna e Zalando geraram 183 empresas, elevando a qualidade do deal flow proprietário.
- Participação estratégica de capital catalítico – o alinhamento com programas governamentais para infraestrutura crítica (IA e energia) dilui o risco em setores de capital intensivo e acelera o DPI.
Conclusão: um modelo híbrido e irreversível
A transição para um Venture Capital híbrido – fundado tanto em saídas públicas quanto em infraestruturas privadas de liquidez – é irreversível. O paradigma que media o sucesso estritamente pelo IPO cedeu lugar à sofisticação na gestão de mercados secundários. Com cerca de US$3 trilhões em valor não realizado e um volume secundário consolidado de US$106,3 bilhões, a evolução deixou de ser escolha para se tornar imperativo de sobrevivência. O cenário pede otimismo cauteloso, ancorado na modernização das infraestruturas de mercado e no fortalecimento das bases institucionais que permitem ao capital voltar a fluir com a velocidade que a inovação exige.


